Gabriela GonçalvesPSICÓLOGA · CRP 16/11148
Recusa de tratamentoFamíliaConteúdo educativo

Terapia adianta se a pessoa que usa não quer se tratar?

O familiar pode cuidar da própria saúde, rever limites e reconstruir a rotina mesmo quando a outra pessoa recusa tratamento.

Por Gabriela Gonçalves, psicóloga · CRP 16/11148 · Publicado em setembro de 2026

Depois de conversas, acordos e recusas, pode surgir uma dúvida: se a pessoa que usa álcool ou outras drogas não pretende mudar, para que serviria uma terapia para a família?

O familiar pode se beneficiar da psicoterapia mesmo que a outra pessoa não participe. O atendimento pode cuidar do desgaste de quem procurou ajuda, das decisões que precisa tomar, da culpa ligada aos limites e da vida que ficou em espera.

Isso não garante que o familiar passe a usar menos, aceite tratamento ou mude de comportamento. Esses resultados não estão sob controle de quem busca psicoterapia. O ponto de partida é a experiência da mãe, do pai ou do filho adulto que chegou ao atendimento.

expectativas

Duas perguntas que precisam ser separadas

Quando alguém pergunta se a terapia “adianta”, duas expectativas podem estar misturadas:

  • A psicoterapia pode ajudar o familiar a cuidar da própria saúde e a responder de outra forma à situação?
  • A psicoterapia fará a pessoa que usa substâncias aceitar tratamento?

A primeira pergunta pode orientar um trabalho clínico individual. A segunda depende das escolhas de outro adulto e não comporta garantia.

Possíveis objetivos da psicoterapia do familiarResultados que ela não pode prometer
Compreender como a situação afeta sua vidaFazer outra pessoa iniciar tratamento
Examinar culpa, medo, raiva e ambivalênciaControlar o uso de álcool ou outras drogas
Construir limites que possam ser sustentadosImpedir uma futura recaída
Rever formas de comunicação e de ajudaGarantir reconciliação ou convivência sem conflitos
Retomar cuidados, vínculos e projetos própriosDiagnosticar quem não está em atendimento

Separar essas expectativas evita que o valor da própria terapia seja medido pela conduta de outra pessoa.

própria saúde

O familiar não precisa esperar para cuidar da própria saúde

O modelo estresse, tensão, enfrentamento e suporte, desenvolvido por Orford e colaboradores, parte da premissa de que conviver com problemas relacionados ao uso de substâncias pode produzir estresse prolongado. Os familiares são compreendidos como pessoas comuns tentando lidar com uma situação difícil, sem serem tratados como a causa do problema.[1]

Nesse modelo, as formas de enfrentamento e o apoio disponível influenciam como o familiar atravessa a situação. A pessoa pode examinar o que vem fazendo, perceber o custo de cada resposta e ampliar sua rede de suporte. Ela não está impotente diante da própria saúde, ainda que não consiga decidir pelo outro.

Na prática, isso pode significar olhar para perguntas que foram sendo adiadas:

  • Quanto da minha rotina passou a depender de saber se ele usou ou não?
  • O que tenho feito por medo, embora já saiba que não consigo sustentar?
  • Quais limites eu anuncio e depois abandono por culpa?
  • Que partes da minha vida precisam voltar a ter espaço?

Essas perguntas não diagnosticam o familiar. Elas ajudam a definir o que merece atenção em uma psicoterapia individual.

evidência

O que a pesquisa sobre CRAFT realmente permite dizer

O Community Reinforcement and Family Training, conhecido como CRAFT, é uma intervenção estruturada para familiares de pessoas que recusam tratamento. Entre seus objetivos estão melhorar o funcionamento psicológico do familiar, desenvolver formas de comunicação e aumentar a possibilidade de a outra pessoa procurar atendimento.

Um estudo de 2016 reuniu 94 familiares de pessoas com dependência de álcool que recusavam tratamento. Os participantes foram distribuídos por sorteio entre dois grupos: um iniciou o CRAFT imediatamente e o outro aguardou três meses. Nesse período, a pessoa que usava álcool iniciou tratamento em 40,5% dos casos no primeiro grupo e em 13,9% no grupo de espera. Depois de participarem do programa, familiares dos dois grupos também relataram melhora na própria saúde mental e na coesão familiar.[2]

Neste estudo, a intervenção estruturada com familiares aumentou a entrada da pessoa próxima em tratamento e também trouxe benefícios aos participantes. O panorama do CRAFT publicado no Psychiatric Times descreve uma abordagem positiva e pouco confrontativa, baseada em comunicação, reforço de comportamentos não relacionados ao uso e preservação do bem-estar do familiar.[3]

convite

“Como convencer alguém a se tratar?”

A pergunta costuma nascer do medo e da esperança de encontrar as palavras capazes de interromper o sofrimento.

Não existe uma frase que obrigue outro adulto a aceitar tratamento. A psicoterapia pode ajudar o familiar a preparar uma conversa clara, escolher um momento mais adequado, fazer um pedido concreto e reconhecer a resposta que recebeu. Também pode ajudar a decidir o que fará depois, inclusive quando a resposta continua sendo negativa.

espera

Tenho que esperar ele chegar ao fundo do poço?

“Fundo do poço” não é um critério clínico com definição única. Na vida familiar, essa ideia pode virar um adiamento sem prazo: todos aguardam que algo grave aconteça para considerar legítimo procurar ajuda.

O familiar pode buscar cuidado agora. Pode conversar sobre seus limites, procurar informação confiável e decidir como proteger seus recursos, mesmo que a outra pessoa rejeite tratamento. Esperar passivamente não é a única possibilidade.[2]

Isso não significa tentar produzir uma crise, retirar apoio de forma abrupta ou deixar uma situação perigosa piorar. Quando houver risco imediato, a prioridade é procurar os serviços de urgência indicados ao final deste texto.

o que muda

O que pode mudar se a outra pessoa continuar igual

Talvez o familiar ainda use substâncias, negue o problema ou recuse atendimento. Mesmo nesse cenário, existem aspectos da vida de quem procurou psicoterapia que podem ser trabalhados:

  • a forma de responder a pedidos;
  • o limite entre oferecer ajuda e assumir consequências que pertencem ao outro;
  • a decisão de entrar ou sair de uma conversa que se tornou improdutiva;
  • o cuidado com sono, trabalho, consultas e relações que foram deixadas de lado;
  • a maneira de lidar com a culpa depois de dizer “não”.

Mudanças como essas não funcionam como técnica para controlar outra pessoa. Elas dizem respeito à saúde e às escolhas do próprio familiar. O efeito e o ritmo do atendimento variam de pessoa para pessoa.

atendimento

Como funciona um psicólogo só para o familiar

O atendimento é individual e voltado à pessoa adulta que o procurou. Ela pode falar sobre situações familiares sem que o outro participe ou autorize sua psicoterapia.

A psicóloga não diagnostica quem está ausente, não trabalha como intermediária para convencer alguém e não transforma as sessões em investigação sobre cada comportamento do familiar que usa substâncias. Também não se trata de atendimento familiar conjunto.

O foco pode incluir sofrimento emocional, padrões de comunicação, limites, decisões práticas e retomada da própria vida. Se surgir uma necessidade fora do escopo do atendimento, a profissional poderá orientar a busca de um serviço adequado.

quando procurar

Quando procurar apoio

A psicoterapia pode ser útil quando o problema passou a tomar grande parte da rotina, quando toda tentativa de estabelecer um limite termina em culpa ou quando as mesmas conversas se repetem sem produzir resultados. Também pode ser considerada quando você só se permite descansar se o outro estiver bem ou já não encontra espaço para falar da própria experiência.

Não é necessário esperar que a situação atinja um ponto extremo. O atendimento começa pelo que está acontecendo com você agora.

perguntas frequentes

Perguntas frequentes

Se ele é adulto, você não pode decidir o tratamento em seu lugar. Pode oferecer informações, fazer um convite claro, definir limites sobre sua casa e seus recursos e buscar apoio para si. Em situações de risco imediato, procure um serviço de urgência.
cuidado para você

A sua decisão de buscar cuidado pode ser tomada agora

A recusa da outra pessoa talvez continue por algum tempo. Ainda assim, você pode olhar para o efeito dessa situação na sua saúde, compreender melhor suas respostas e construir limites possíveis.

A primeira sessão é um espaço individual para conversar sobre o que está acontecendo e esclarecer como funciona o atendimento. Ela não exige a participação do familiar que usa álcool ou outras drogas.

Entenda como funciona o atendimento psicológico online

Atendimento destinado a pessoas adultas. O contato inicial é voltado a informações e agendamento e não funciona como serviço de emergência.

Em caso de urgênciaSe houver risco imediato à vida ou à integridade de alguém, procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital, ou acione o SAMU pelo 192. Para apoio emocional e prevenção do suicídio, o CVV atende gratuitamente pelo 188, 24 horas por dia.[4]
Limites deste conteúdoEste conteúdo tem caráter educativo e não substitui atendimento psicológico individual, avaliação da pessoa que usa substâncias ou atendimento de urgência.
Sobre a autora
Gabriela Gonçalves, psicóloga, CRP 16/11148

Formada em Psicologia pela UFF, com pós-graduação em andamento em Neuropsicologia pela Santa Casa de Misericórdia-ES, possui experiência em clínica especializada em internação para dependência química ou álcool, incluindo atendimento individual, grupos de prevenção de recaída, trabalho com equipe multidisciplinar e psicoeducação de familiares. Orienta sua prática pelos referenciais da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).

Conheça a formação e a experiência profissional da autoraPublicado em: · Última atualização:

Referências

  1. Orford J, Copello A, Velleman R, Templeton L. Family members affected by a close relative's addiction: the stress-strain-coping-support model. Drugs: Education, Prevention and Policy. 2010;17(s1):36–43. DOI: 10.3109/09687637.2010.514801.
  2. Bischof G, Iwen J, Freyer-Adam J, Rumpf HJ. Efficacy of the Community Reinforcement and Family Training for concerned significant others of treatment-refusing individuals with alcohol dependence: a randomized controlled trial. Drug and Alcohol Dependence. 2016;163:179–185. DOI: 10.1016/j.drugalcdep.2016.04.015.
  3. Meyers RJ, Austin JL, Smith JE. Enlisting Family Members to Address Treatment Refusal in Substance Abusers. Psychiatric Times. 2006;23(11).
  4. Ministério da Saúde. Suicídio (prevenção): onde buscar ajuda.

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